Como Calcular o Escore HEART para Dor no Peito (Com Exemplo Prático)
O escore HEART estratifica o risco de um paciente com dor no peito ter um evento cardíaco adverso maior (MACE, na sigla em inglês) nas seis semanas seguintes ao atendimento. Ele soma cinco critérios (Histórico, ECG, idAde, fatores de Risco e Troponina), cada um valendo 0, 1 ou 2 pontos, num total de 0 a 10. Esse total joga o paciente numa de três faixas de risco, e é essa faixa que orienta se ele volta para casa, fica em observação ou segue para investigação invasiva precoce.
A tabela dos 5 critérios
| Critério | 0 pontos | 1 ponto | 2 pontos |
|---|---|---|---|
| Histórico | Pouco sugestivo | Moderadamente sugestivo | Altamente sugestivo |
| ECG | Normal | Alteração de repolarização inespecífica | Desvio significativo do segmento ST |
| Idade | Menor que 45 anos | 45 a 64 anos | 65 anos ou mais |
| Fatores de risco | Nenhum conhecido | 1 a 2 fatores | 3 ou mais fatores, ou doença aterosclerótica já conhecida |
| Troponina | No limite normal ou abaixo | 1 a 3 vezes o limite superior | Mais de 3 vezes o limite superior |
Cada linha soma independente das outras. O total mínimo é 0, o máximo é 10, e não existe meio ponto: o clínico escolhe a categoria que melhor descreve o paciente naquele momento.
Histórico, fatores de risco e as pegadinhas do ECG
O critério Histórico não é sobre presença ou ausência de dor, é sobre o padrão dela. Uma dor retroesternal em aperto, que piora com esforço, irradia para braço ou mandíbula e vem acompanhada de sudorese pontua 2 (altamente sugestiva). Uma dor em pontada, que piora ao respirar ou muda com a posição do corpo, e principalmente que reproduz à palpação da parede torácica, pontua 0 (pouco sugestiva). O meio-termo (2, por exemplo) fica com quadros que têm alguma característica isquêmica mas não o padrão clássico completo.
Fatores de risco entram numa lista fixa: hipertensão, colesterol alto, diabetes, obesidade (IMC acima de 30), tabagismo atual ou interrompido há até 3 meses, histórico familiar de doença cardiovascular. Qualquer doença aterosclerótica já documentada (infarto prévio, angioplastia, revascularização miocárdica, AVC, AIT ou doença arterial periférica) também entra nessa linha, e sozinha já garante a pontuação máxima de 2, independente de quantos outros fatores o paciente tenha ou deixe de ter.
O ECG tem uma limitação que passa despercebida com frequência: bloqueio de ramo esquerdo (BRE), ritmo de marca-passo e efeito digitálico distorcem o segmento ST de um jeito que impede uma leitura confiável para este critério específico. Nesses casos o julgamento clínico complementa a pontuação, apoiado nos outros quatro critérios, em vez de forçar uma nota que o traçado não sustenta.
Exemplo calculado: um caso que muda de faixa
Homem de 58 anos chega com 2 horas de dor torácica em aperto, retroesternal, irradiando para o braço esquerdo, acompanhada de sudorese. Tem hipertensão, diabetes tipo 2 e é tabagista ativo (três fatores de risco). O ECG mostra achatamento inespecífico da onda T. A troponina veio em 2 vezes o limite superior da normalidade.
| Critério | Achado | Pontos |
|---|---|---|
| Histórico | Dor em aperto, irradiando, com sudorese | 2 |
| ECG | Achatamento inespecífico da onda T | 1 |
| Idade | 58 anos (faixa 45-64) | 1 |
| Fatores de risco | Hipertensão, diabetes, tabagismo (3 fatores) | 2 |
| Troponina | 2x o limite superior | 1 |
| Total | 7 |
Sete pontos cruzam a fronteira entre risco moderado e risco alto. Essa mudança de faixa pesa na decisão: em vez de repetir a troponina e reavaliar em algumas horas, o quadro passa a favorecer internação com investigação invasiva precoce e avaliação da cardiologia.
Compare com um paciente de 32 anos que chega com dor na parede torácica, atípica, que reproduz à palpação e piora conforme a posição do corpo. ECG normal, nenhum fator de risco, troponina normal. Cada critério pontua 0, o total fica em 0, e o risco é baixo. Muitos prontos-socorros usam exatamente essa combinação (escore baixo mais uma troponina inicial normal, dentro do que se chama de HEART Pathway) para liberar o paciente sem exames seriados ou teste de esforço.
Calcule o escore do seu paciente
Risco de MACE por faixa de pontuação
| Faixa | Pontuação | Risco de MACE em 6 semanas |
|---|---|---|
| Baixo | 0 a 3 | Aproximadamente 0,9% a 1,7% |
| Moderado | 4 a 6 | Aproximadamente 12% a 16,6% |
| Alto | 7 a 10 | Aproximadamente 50% a 65% |
A diferença entre as faixas não é sutil. Sair de moderado para alto multiplica o risco estimado por um fator de 3 a 5 vezes, o que explica por que a conduta muda de forma tão abrupta num único ponto de diferença.
Erros comuns e situações que exigem atenção
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Contar fatores de risco duas vezes quando já existe doença aterosclerótica conhecida. Um paciente com infarto prévio ou stent já pontua 2 nessa linha automaticamente. Não é preciso somar hipertensão, diabetes e outros fatores à parte, o critério já está no teto.
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Pontuar o ECG num ritmo de marca-passo ou BRE. Nenhum dos dois permite leitura confiável do desvio de segmento ST que este critério busca. Apoie-se nos outros quatro critérios e no julgamento clínico em vez de forçar uma nota.
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Tratar o escore HEART como substituto da triagem de infarto com supra de ST (IAMCSST). O escore entra depois que o paciente já passou pela avaliação inicial que descarta um IAMCSST ou outra instabilidade evidente. Ele responde “qual o risco nas próximas seis semanas”, não “esse paciente precisa de hemodinâmica agora”.
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Ignorar a tendência da troponina. O escore usa um único valor de troponina, mas um caso limítrofe com uma segunda troponina em ascensão pede reclassificação para uma conduta mais cautelosa, mesmo que a soma aritmética ainda aponte para a faixa anterior.
Perguntas frequentes
O que cada letra de HEART representa?
Histórico, ECG, idAde, fatores de Risco e Troponina. Cada critério pontua 0, 1 ou 2, e a soma dos cinco vai de 0 a 10.
Qual pontuação do escore HEART é considerada baixo risco?
De 0 a 3, com risco de MACE em seis semanas estimado entre 0,9% e 1,7%. Combinada com uma troponina inicial normal, essa faixa embasa a alta precoce em muitos serviços, sem necessidade de exames seriados.
Uma pontuação alta significa que o paciente está infartando agora?
Não necessariamente. Significa que o risco em seis semanas é alto, na faixa de 50% a 65% conforme os estudos que validaram o escore. Isso motiva internação e investigação invasiva precoce, mas não implica cateterismo automático e imediato.
O escore HEART substitui o exame de troponina?
Não. A troponina é uma das cinco entradas do escore, então o resultado final já depende dela. Muitos protocolos ainda pedem uma segunda troponina seriada antes de fechar a decisão de alta, especialmente em casos limítrofes.